sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Oficina de Haikai - 6 - Rima. Ter ou não ter?




(Quem opina é a menina Nina que este tema origina e a oficina refina, a quem dedico essa rima. Ai, isso contamina e desatina!!)

O Haicai (ou Haikai, ou Haiku) originalmente, é claro, é em japonês e SEM rima. Explora, contudo, a sonoridade da língua japonesa. Delicada, com vogais marcadas. Me arrisco a poucas palavras em japonês, mas já convivi com muitos, trabalhei com vários, tenho entre meus compadres e melhores amigos descendentes de japoneses e até sobrinhos (minha irmã casou-se com um nissei). Por isso tenho certa familiaridade com a melodia do idioma japonês. Em português, procuramos a mesma essência e concisão. As rimas, aliterações e até trocadilhos dão um certo charme e cadência ao haicai mestiço, abrasileirado. Até o mestre Goga achava interessante. Mas não é regra. Aliás, desvirtua a regra. Mas, poesia é poesia. Se toca a alma e transmite a beleza zen do haicai, porque não?
Tenho uma toria particular sobre rimas. Eles são como gatos. Quando você chama, vai atrás, ela não vem. Deixe a rima vir, enrolar-se nas suas pernas, na hora que ela quiser. Aí você tenta tocar a rima fora e a danada volta! Só assim me aparecem as rimas boas!

Paciência de tartaruga
Cem anos
Em cada ruga
(Alexandre Brito)


que flor é esta,
que perfuma assim
toda a floresta?
(Carlos Seabra)

Três flores unidas
Criam caso na alcova do vaso
E tramam escondidas.
(Danita, rimado e Guilhermino)


Flor-estrela viva
Na copa da árvore galopa
Humilde e altiva.
(Danita, rimado e Guilhermino)

domingo, 14 de agosto de 2011

Oficina de Haikai - 5. Mulheres e Haikai




Nas regras poéticas do Peregrino, de Bashô, que aparece no Goshichiki em 1760 (66 anos após sua morte) no capítulo 12 diz: "Não se torne íntimo com as mulheres escrevendo haikku; não é bom para a estudante nem para o professor. Se ela está determinada sobre o haikku, ensine-a através de uma outra. A natureza dos homens e mulheres é a reprodução. A distração perturba a riqueza e a unidade da mente. O caminho para o haikku surge da concentração. Olhe para si mesmo.
Não é curioso e cômico? Enredados em tamanho estado de poesia, natural que ocorressem romances.
Coincidência (ou não) Paulo Leminsky e Alice Ruiz formaram um casal referência quando se pensa em Haikai. A poetisa Curitibana premiada 2 vezes com o Jabuti de poesias, é autora de vários dos meus poemas preferidos (e tive a honra de ser sua aluna).

Entre uma estrela
E um vagalume
O sol se põe

Varal vazio
um só fio
lua ao meio

Outra Curitibana, anterior à Alice foi a doce Helena Kolody, veja que encantador:
Arco-íris no céu.
está sorrindo o menino
que há pouco chorou


Fanny Luíza Dupré foi a primeira mulher a publicar um livro (Pétalas ao Vento – Haicais)em 1949
Pinheirais augustos.
Curitiba. Paraná...
Vestidos de verde

Outra mulher que se destaca é Teruko Oda.
Teruko publicou vários livros e consta em muitas anntologias. Entre eles, NATUREZA - BERÇO DO HAICAI (KIGOLOGIA E ANTOLOGIA) como co-autora do mestre Hidekazu Masuda (Goga).

Ventinho da tarde.
no leve ondular de folhas
Cigarra de outono.

Dia de descanso
Vem da serra, sem descanso
canto da araponga


Eu mesma traduzi alguns haicais de escritoras americanas no meu blog, que você leitor poderá consultar nas publicações mais antigas deste blog, em português e Inglês.
Mulher e Haikai caminham muito bem juntos. Um abraço. Mulheres Haicaistas, por favor contribuam!!

domingo, 7 de agosto de 2011

Oficina de Haikai - 4 - Guilherminos




(...Mas, o que é haicai? - Criada por Bashô (sec. XVII) e humanizada por Issa (sec XVIII), o haicai é a poesia reduzida à expressão mais simples. Um mero enunciado: lógico, mas inexplicado. Apenas uma pura emoção colhida ao vôo furtivo das estações que passam, como se colhe uma flor na primavera, uma folha morta no outono, um floco de neve no inverno... Emoção concentrada numa síntese fina...)
Esta é uma explicação do poeta Paulista, Campineiro Guilherme de Almeida, que morreu quando eu tinha só 3 anos e infelizmente não poderia namorá-lo. Mas nada me impede de amá-lo. Esse poeta perfeccionista, inspirado, moderno e curioso conheceu um cônsul japonês na década de 30, frequentou encontros poéticos na comunidade oriental, encantou-se pelo jogo do haicai. Porém incorporou uma regra peculiar (que me agrada muito, mas não é lá muito zen). Ele sugere uma rima encadeada no segundo verso, além das rimas do primeiro e terceiro versos. Ou seja, pura matemática, uma brincadeira de encaixe. Veja o exemplo abaixo e conheça mais http://www.terebess.hu/english/haiku/almeida.html

O haicai (Guilherme de Almeida)

Lava, escorre, agita
a areia. E enfim, na batéia,
fica uma pepita

Eu ADORO, A D O R O!!!! os Haicais Guilherminos. O mestre Goga afirmou que na língua portuguesa as rimas são suaves. Os haicais Guilherminos são haicais mestiços, abrasileirados. Mas belíssimos.

Atrevo-me até a ensaiar alguns.

Nos malabares
labaredas de seda
Bailam nos ares.
(Danita Cotrim)

Tempo vai ligeiro
Broto frágil torna-se ágil
Alto pinheiro
(Danita Cotrim)

Agradeço aos amigos da net que têm feito comentários e postado lindos haicais. Continuemos o jogo.

domingo, 31 de julho de 2011

Oficina de Haikai - 3 - Métrica (Quem tem uma régua para se medir a vida?)




Meu carinho imenso aos amigos haicaístas que nos brindaram generosamente com lindos poemas nos comentários deste blog.

Haikai é um jogo e portanto tem suas regras básicas. Uma delas é a métrica. Falta de métrica descaracteriza o haikai. Pode ser poesia, mas vira poemínimo, poetrix. Para levar nome haicai, precisa haver três versos que não ultrapassem dezessete sílabas poéticas (ou sons poéticos). São cinco sílabas no primeiro verso, sete no segundo e cinco no terceiro (5-7-5). Lembrando que em português, o verso se conta até o fim da última sílaba tônica. No entanto, a poesia não deve se escravizar à métrica, poesia não se sente à regua. Prefiro assim, poesia desmedida, aquela de peso errado, generosa, oferecida.

Da dama-da-noite
vem o vento perfumado
na mesa ao ar livre
(Mestre Masuda Goga)

Ipês floridos
depois da tempestde
a rua roxa
(Jussara Moraes)

Caminhos do sul
Entre pinheiros negros
Rasga o céu azul
(Danita Cotrim)

domingo, 24 de julho de 2011

Oficina de Haikai - 2. Kigo, o que é isso?




Haikai tem que ter kigo. O Kigo é a palavra que dá o mote, o tema e principalmente uma dica sobre qual estação do ano/natureza o haikai se refere. Por exemplo:

Torrentes geladas
lavam e levam
o lajeado. (Danita 2010)

As "torrentes geladas" podem ser um kigo de inverno.

Um haicai clássico inspira-se e indica uma estação do ano e os elementos da natureza. É uma transcrição literária do momento volátil.
Praia pode ser um kigo de verão. Lua cheia brilhante, um kigo de outono. Vinho quente, um kigo de inverno.
O kigo também é um desafio para um jogo de haikai.
Vou propor um Kigo: cachecol.

Faço o meu haikai de hoje.

Menina no sofá
aconchegado no colo
o gato é seu cachecol.

Para mais informação
http://www.recantodasletras.com.br/teorialiteraria/388754

domingo, 17 de julho de 2011

Oficina de Haikai - 1 Compartilhando o que aprendi





Hoje vou tomar a liberdade de fazer um rascunho de uma troca de idéias sobre haikai. Não tenho a pretensão que seja uma " oficina de haikai", porém, o pouco que consegui amealhar, trocarei com quem estiver disposto a ler.

* Aprendi que nem todo poema de três versos é um haikai.
* O haikai é uma foto onde parecemos...mas nunca aparececemos.
Somos apenas o "fotógrafo" anônimo.
* O haikai é orgânico, não tem conservantes, faz bem à saúde, ajuda na concentração, pricipalmente quando começamos a perceber beleza nas coisas que ninguém nota.
* O haikai é um jogo, podemos jogá-lo sozinhos, mas com outros jogadores é muito mais gostoso. Mesmo que os jogadores sejam leitores virtuais.
* Melhor que sudoku, pois ao invés de números, joga com palavras.

Paraty


Sobre telhados coloniais
As flores esticam pescoços
Para espiar o cais

On the roof top, with no fear
The flowers stretch their necks
To spy on Paraty´s pier